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Mixtape
"Existe uma diferença gigantesca entre uma obra que toca fundo e uma obra que toca fundo *em você*. O consenso gringo tentou empurrar *Mixtape* goela abaixo como uma das melhores experiências de 2026. Choveram notas altíssimas para um título de 20 dólares, com críticos se debulhando em lágrimas e comparando a jornada a ouvir aquela música exata que define uma fase da vida. Eu entendo o argumento. Só que tem uma condição que esqueceram de avisar: para essa música bater e fazer sentido, ela precisa ser a *sua* música. E, para a gente aqui, ela simplesmente não é. E mais: provavelmente nunca chegou em seu contexto, muito longe até de sua cidade talvez. Algumas nem fizeram cócegas em seu país. Nesta resenha que escrevi (e você pode ler por completa no link), a gente precisa colocar as cartas na mesa sobre o que acontece quando um jogo constrói sua fundação emocional inteira em cima de uma memória que não te pertence. A história acompanha três adolescentes, Rockford, Slater e Cassandra, na última noite antes de a vida adulta separar o grupo. Cada faixa de uma fita cassete dispara um flashback, transformando fragmentos do passado em vinhetas jogáveis. O problema é que a trilha sonora, que deveria ser o motor do jogo, cobra um pedágio altíssimo. O título pressupõe que você cresceu consumindo o exato mesmo ecossistema de mídia de um adolescente americano ou australiano dos anos 90. Ele espera que uma faixa do Silverchair ou do Devo funcione como um gatilho nostálgico instantâneo, já que o restante é mais hardcore. Mas sejamos francos: quem de nós, na juventude, tinha esse repertório musical tão refinado sem ser filho de diplomata trazendo disco importado na mala? O buraco é bem mais embaixo. Essa desconexão cultural cria um muro silencioso. Você até entende o que o jogo quer transmitir, respeita a proposta artística, mas não sente o baque. É como assistir ao filme de uma vida que você nunca viveu. Você vira apenas um espectador segurando o controle, vendo o gringo ter crise de saudade de uma época financiada por um cenário completamente diferente do nosso. E, já que falamos do controle, precisamos tocar na ferida da interatividade — ou da total falta dela. *Mixtape* é um jogo absurdamente passivo. Você move os bonecos pelos cenários e participa de minigames que não geram peso real, não criam apostas e não exigem nenhuma decisão difícil. As grandes frustrações daqueles personagens já aconteceram antes mesmo da tela de start. O resultado é que essa passividade, que até exala um charme contemplativo nas primeiras horas, logo começa a cansar. O jogo confia tanto na própria estética que esquece de entregar um motivo mecânico sólido para você continuar jogando. Fica a constatação: debaixo de toda essa aura de nostalgia inacessível, quase não há jogo de fato. O personagem central é uma garota narcisista e muita gente não irá perceber. Ela usar as pessoas para compôr suas peças emocionais, interações sociais baseadas em seu gosto musical. Ela manipula a situação para que a noite perfeita ocorra seguindo a MIXTAPE que montara. A outra, uma delinquente que quer ser chamada de disruptiva, e invés de aprender a tocar um instrumento para vomitar seus sentimentos numa banda, prefere ser uma incendiária criminosa só para se mostrar afrontosa com seu pai. O outro, um maconheiro que diz que sua propria passividade quanto a vida é "apenas a vibe dele". Mas, para ser justo e não dizer que só joguei pedra, eu preciso reconhecer o único ponto em que eles acertaram em cheio. Esteticamente, a direção de arte da Beethoven & Dinosaur é um absurdo. Os gráficos e o cuidado com a ambientação são os elementos que carregam a experiência nas costas. Tudo ali foi desenhado para parecer uma lembrança processada pela mente: as cores desbotam no tom certo, a iluminação de fim de tarde é irretocável, e a forma como tratam os objetos do cotidiano — um skate encostado, um pôster torto na parede, uma fita na gaveta — é cirúrgica. Sem discussão, é um dos visuais mais bonitos do ano. A equipe soube transformar o ato de lembrar em um espetáculo estético irrepreensível. O grande ponto é que um visual primoroso não sustenta o vazio das mecânicas nem o isolamento cultural imposto a qualquer jogador fora do eixo anglófono. *Mixtape* quer ser videogame e memória ao mesmo tempo, mas tropeça na própria identidade, entregando muito mais observação do que participação. A sensação final é a de que a obra funcionaria maravilhosamente bem como um curta animado, porque, como jogo interativo, a câmera pesa demais com o passar do tempo. Parece um produto idealizado por uma bolha privilegiada da Annapurna, composta por gente que nunca olhou para fora do próprio quintal para entender que o resto do mundo consome e vive a nostalgia de um jeito bem diferente."

Mixtape
Avaliado em 11/05/2026